Paulo Roberto Gomes Fernandes esteve ligado, em 2020, a um dos projetos mais sensíveis e debatidos da infraestrutura energética da América do Norte: o lançamento de um oleoduto sob o Estreito de Mackinac, no Lago Michigan, utilizando tecnologia brasileira desenvolvida pela Liderroll.
À época, a iniciativa da empresa canadense Enbridge enfrentava forte escrutínio público, questionamentos ambientais e entraves judiciais. Nesse contexto, a solução técnica concebida no Brasil acabou se tornando um elemento central para a continuidade do projeto, sendo a alternativa que obteve menor resistência da população local durante audiências públicas realizadas naquele período.
Um projeto cercado de controvérsias ambientais e jurídicas
O plano da Enbridge previa a construção de um túnel para acomodar um novo trecho do oleoduto da Linha 5, estrutura que conecta os lagos Michigan e Huron e que já operava havia décadas. A obra buscava substituir o trecho submerso existente por uma solução considerada mais segura, instalada a centenas de metros abaixo do leito do lago.
Mesmo assim, Paulo Roberto Gomes Fernandes informa que as organizações ambientalistas, grupos comunitários e especialistas independentes levantaram dúvidas sobre os impactos da escavação e sobre a real capacidade da empresa de executar o projeto sem riscos aos Grandes Lagos. Esses questionamentos ganharam força nos tribunais e nos fóruns públicos, prolongando o debate e atrasando decisões.
A tecnologia brasileira como alternativa viável
Foi nesse cenário que a tecnologia da Liderroll passou a ganhar protagonismo. Desenvolvida originalmente para lançamentos de dutos em ambientes confinados, como túneis longos e de pequeno diâmetro, a metodologia brasileira demonstrava capacidade técnica para lidar com situações complexas de descida, subida e curvaturas, exatamente o tipo de desafio imposto pelo projeto do Lago Michigan.
Durante o processo de avaliação, Paulo Roberto Gomes Fernandes expõe que a Enbridge apresentou à Justiça norte-americana um vídeo técnico detalhando, passo a passo, o método construtivo que seria adotado. A animação mostrava o funcionamento da tuneladora, a escavação em profundidade e a posterior instalação do duto, tudo baseado na tecnologia brasileira licenciada para o projeto.

Esse material teve papel relevante na análise judicial, ajudando a esclarecer aspectos técnicos do empreendimento e contribuindo para a liberação da obra naquele momento.
Transparência técnica e aceitação pública
Um dos diferenciais apontados na época foi justamente a clareza do processo construtivo. A apresentação detalhada da metodologia ajudou a reduzir a percepção de risco entre moradores da região, autoridades locais e parte da opinião pública, que viam com preocupação qualquer intervenção sob os Grandes Lagos.
A tecnologia previa, por exemplo, que o material resultante da escavação seria tratado em uma instalação específica na costa sul do estreito. A lama de rocha seria separada, com reaproveitamento da água no próprio processo, reduzindo descartes e impactos ambientais diretos.
Ainda assim, Paulo Roberto Gomes Fernandes destaca que as críticas técnicas continuaram a surgir. Um dos pontos levantados por especialistas independentes dizia respeito ao uso de argila bentonítica no processo de perfuração, material que poderia permanecer em suspensão na água caso ocorresse algum incidente.
Avaliação técnica e resposta institucional
Diante dessas preocupações, representantes da Enbridge afirmaram, naquele período, que geólogos e engenheiros especializados haviam sido amplamente consultados. Segundo a empresa, a profundidade do túnel funcionaria como uma barreira adicional de segurança, impedindo que eventuais liberações atingissem o fundo do lago.
As autoridades responsáveis pela análise do projeto informaram que todas as manifestações públicas, favoráveis ou contrárias, seriam consideradas no processo decisório. O Estado também contratou consultores independentes com experiência em construção de túneis para avaliar a proposta de forma técnica e imparcial.
Um marco para a engenharia brasileira no exterior
O episódio de 2020 acabou se tornando um marco simbólico para a engenharia brasileira aplicada à infraestrutura energética internacional. Em um projeto altamente sensível, sob intenso escrutínio ambiental e político, uma solução desenvolvida no Brasil foi escolhida como a mais adequada do ponto de vista técnico e operacional.
Embora o debate sobre a Linha 5 tenha se estendido nos anos seguintes, aquele momento consolidou o reconhecimento da tecnologia brasileira como uma alternativa madura, capaz de atender a exigências rigorosas de segurança, transparência e desempenho em ambientes extremos.
Para Paulo Roberto Gomes Fernandes, o caso reforçou algo que já vinha sendo observado em outros projetos internacionais: a capacidade da engenharia nacional de oferecer soluções inovadoras para desafios complexos, muitas vezes superando modelos tradicionais adotados há décadas em grandes obras de infraestrutura.
Autor: Victor Castro