Especialista em segurança digital explica como criminosos usam falsas celebridades e biometria para enganar apostadores e driblar sistemas de verificação
O crescimento das apostas esportivas online no Brasil trouxe consigo um problema que preocupa especialistas em segurança digital: o uso cada vez mais sofisticado de inteligência artificial e deepfakes para aplicar golpes contra apostadores. Kris Galloway, head de iGaming da empresa de verificação de identidade Sumsub, detalhou em entrevista o funcionamento desses esquemas e os desafios que o setor enfrenta para conter esse tipo de fraude.
Segundo Galloway, uma das táticas mais comuns entre operadores ilegais é o uso de deepfakes para simular publicidades de celebridades conhecidas do público brasileiro. Vídeos falsos aparentam mostrar figuras públicas endossando determinado jogo de apostas, criando uma falsa sensação de confiança que induz o usuário a instalar aplicativos maliciosos, muitas vezes disponibilizados até mesmo em lojas oficiais como a App Store e a Google Play Store. O golpe funciona como um cavalo de troia: a vítima acredita estar participando de um jogo legítimo, mas vai perdendo dinheiro aos poucos até perceber que caiu em uma fraude.
Os números apresentados pelo relatório State of Identity Verification in the iGaming Industry, publicado pela própria Sumsub, ajudam a dimensionar o problema. No Brasil, houve um aumento de 126% no uso de deepfakes em golpes relacionados a apostas em 2025. Curiosamente, a taxa global de ataques em geral caiu para 2,2% no último ano, mas os casos envolvendo fraudes sofisticadas por meio de inteligência artificial generativa e deepfakes cresceram 180% em todo o mundo no mesmo período, um contraste que evidencia a mudança no perfil das ameaças enfrentadas pelo setor.
Por que a América Latina está no centro do problema
De acordo com uma pesquisa da Sumsub realizada em 2025, 78% das operadoras de apostas já detectaram algum caso de fraude envolvendo deepfakes, e a América Latina concentra 39% de todas as ocorrências identificadas no mundo. Para Galloway, esse cenário está diretamente ligado à facilidade crescente com que criminosos digitais conseguem falsificar documentos e forjar identidades usando ferramentas de inteligência artificial acessíveis ao público em geral, incluindo assistentes de conversação amplamente disponíveis.
O especialista destaca ainda que fraudes de identidade não servem apenas para enganar apostadores individuais, mas também alimentam esquemas mais complexos de lavagem de dinheiro. Em uma análise anterior da Sumsub, esse tipo de problema respondeu por 64,8% das ocorrências enfrentadas por operadoras legais, o que torna o monitoramento de contas e do fluxo de apostas uma ferramenta importante de investigação. Segundo Galloway, o padrão de movimentação financeira, como depósitos elevados seguidos de apostas em odds muito seguras e saques rápidos, pode indicar tentativa de lavagem de recursos por meio de contas registradas em nome de terceiros, as chamadas contas laranjas.
Diante desse cenário, a legislação brasileira já prevê uma camada adicional de proteção. A Lei 14.790, de 2023, que regulamenta as apostas esportivas de cota fixa no país, obriga as plataformas autorizadas a adotarem tecnologia de identificação e reconhecimento facial para verificar a identidade dos apostadores em diferentes momentos da jornada de uso. O descumprimento dessa exigência pode resultar em multas de até R$ 2 bilhões por infração, dependendo da gravidade do caso e do faturamento da empresa envolvida.
O papel da biometria e os limites da tecnologia atual
A biometria facial é hoje considerada uma das ferramentas mais eficazes contra fraudes de identidade, mas mesmo ela não está imune aos avanços da inteligência artificial. Galloway reconhece que já existem casos de deepfakes capazes de driblar sistemas de verificação biométrica, o que exige que operadoras e empresas de segurança digital estejam sempre em busca de tecnologias mais robustas de defesa. A lógica é a de uma corrida constante, em que cada avanço na detecção de fraudes é seguido por novas tentativas de burlar o sistema.
Ao mesmo tempo, o especialista lembra que a própria inteligência artificial pode ser usada a favor da segurança, permitindo identificar padrões suspeitos em escala muito maior do que seria possível com análise manual. Para operadoras ilegais, o desafio de conter fraudes é ainda maior, já que essas plataformas não seguem qualquer tipo de regulamentação ou fiscalização, o que dificulta tanto a responsabilização quanto o monitoramento de eventuais irregularidades cometidas por seus usuários.
O avanço das fraudes digitais no setor de apostas reforça um alerta que vale para qualquer ambiente online: quanto mais sofisticadas ficam as ferramentas de inteligência artificial, maior a necessidade de atenção redobrada por parte dos usuários e de investimento contínuo em segurança por parte das empresas. Para quem aposta, a orientação de especialistas é sempre desconfiar de promessas de ganho fácil vinculadas a supostas celebridades e verificar se a plataforma utilizada está de fato autorizada a operar no Brasil pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.