Pratos como peixe pintado grelhado, mojica e arroz pantaneiro, antes restritos a restaurantes regionais, começaram a aparecer em cardápios de outras partes do país. É um movimento recente dentro de uma tendência maior: a valorização da comida regional brasileira, que deixou de ser vista como “prato de interior” para virar diferencial de cardápio.
Wilson Bachega Junior, entusiasta da culinária e da cultura do Pantanal, considera esse movimento uma correção tardia. Durante décadas, a cozinha pantaneira circulou quase só dentro do próprio Mato Grosso, apesar de reunir técnicas e ingredientes que não existem em nenhuma outra região do país. Veja mais sobre o assunto a seguir!
O que torna a culinária pantaneira diferente?
A base dessa cozinha vem do que o próprio bioma oferece: peixes de água doce, carne de gado criado extensivamente e uma variedade grande de frutos nativos pouco conhecidos fora da região. Isso cria pratos com sabor e textura difíceis de reproduzir com ingredientes de outras origens.
Outro traço marcante é o preparo simples, quase sempre no fogão a lenha ou na brasa, herdado do modo de vida das fazendas pantaneiras. Não há ingrediente industrializado sustentando o sabor: o resultado depende quase inteiramente da qualidade da matéria-prima e do tempo de cozimento, algo cada vez mais raro na gastronomia urbana.
Os pratos que sustentam essa identidade
O peixe pintado e o pacu aparecem como protagonistas, seja grelhados, seja na mojica, um ensopado à base de peixe, temperos e um caldo encorpado que concentra o sabor do rio. É um prato que exige peixe fresco, o que, por muito tempo, limitou sua presença fora do Pantanal.
O arroz pantaneiro, cozido com miúdos e temperos característicos, e a paçoca de carne seca socada no pilão completam o quadro dos pratos mais associados à região. Wilson Bachega Junior aponta esses três como a porta de entrada mais natural para quem nunca provou a cozinha pantaneira.
Por que a demanda cresceu fora da região?
O crescimento do turismo gastronômico e a maior circulação de produtores e cozinheiros regionais em eventos fora do estado ajudaram a levar esses pratos para outros públicos. Redes sociais também tiveram papel relevante: cozinheiros que documentam o preparo tradicional despertaram curiosidade em quem nunca teria contato direto com a região.

Restaurantes especializados em culinária brasileira regional passaram a incluir pratos pantaneiros ao lado de receitas de outros biomas, como forma de diferenciar o cardápio. Essa combinação ajudou a tirar a cozinha do Pantanal do rótulo de “comida de fazenda” e aproximá-la de um público disposto a pagar por autenticidade.
O desafio de manter a receita original longe do Pantanal
Levar esses pratos para fora da região não é simples. O peixe pintado fresco, por exemplo, é difícil de encontrar fora do Centro-Oeste, o que obriga muitos restaurantes a adaptar receitas ou substituir ingredientes, o que muda o resultado final. Wilson Bachega Junior observa que essa adaptação é inevitável, mas que o desafio real está em manter o método de preparo, mesmo quando o ingrediente precisa ser trocado.
Cozinheiros que se dedicam a pesquisar a origem de cada prato antes de adaptá-lo tendem a preservar melhor a identidade da receita. É essa diferença, entre copiar um prato e entender por que ele existe daquele jeito, que separa uma versão fiel de uma versão apenas inspirada na culinária pantaneira.
Uma cozinha que carrega a história de um bioma inteiro
Mais do que uma tendência de cardápio, a circulação da culinária pantaneira fora de sua região de origem carrega consigo um pedaço da relação entre quem vive no Pantanal e o território que o cerca. Cada prato reproduzido fora do bioma leva junto uma técnica aprendida por gerações que dependiam diretamente do rio e da terra para se alimentar. Preservar essa origem ao adaptar uma receita é, no fundo, uma forma de manter viva uma cultura inteira, mesmo quando ela chega à mesa de quem nunca pisou no Pantanal.